quarta-feira, 11 de julho de 2012

Eu sei


Às vezes simplesmente não há uma segunda chance. A palavra proferida, a boca suja do dissabor do fim. Palavras gastas, gestos exaustos, olhares mórbidos e tudo está acabado. Sem segunda chance. Não há que se pedir perdão, não há o que se perdoar. A noite acabou e eu preciso fugir sem você ou fugir de você. A derrota é um sentimento que todo mundo experimenta. O grande mal é quando se experimenta durante a vida inteira. É fácil falar de perda, de dor, de coração partido, de enganos, de ilusão e outros sonhos dantescos. Falar o quê sobre felicidade? Amores que deram certo não é um tema que faz muito sucesso, a não ser em livros de auto-ajuda.
Não tenho como falar de amores, nunca os tive bem, talvez por não me permitir, talvez por falta de sorte mesmo. Não sou mais, ou talvez nunca tenha sido, aquela garota, tão diferente do aparente, tão distante do constante. Tão dupla, tão dual. São sinais da não existência de uma segunda chance, a beleza que não perdurou, os óculos que se quebraram, o tapete que voou sozinho, o amor, negro, que foi engolido pelo céu que rachou, diante do sol, que apesar da dor, brilhava, ou, pela dor, brilhava.
É esse o motivo da raiva. Não são os erros, os sonhos em vão, não são seus olhos, a lembrança do seu abraço. O que dói é ver que existem flores, e outros tantos amores que persistem nesse dia branco, sem cor. É nessas horas que eu queria ter uma bomba pra poder me livrar do trágico efeito de tantos clichês, te fazer enxergar o meu mundo que você não crê. Mas não existe uma segunda chance. E aqui estou eu, chorando baixinho, sonhando acordada, engolindo lágrimas, numa triste tentativa de não sentir dor.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Alucinação

 
Depois de sonhar com o delegado pra quem mandei flores, acordei assustada por me lembrar que não havia desligado a TV e, passadas tantas horas, percebi que ela estava fora do ar. Eu estava, naquele sonho, vivendo os melhores momentos da minha vida. Estávamos, nós dois, dando voltas pela lua no cavalo de Ogum, após vencer o dragão e fazer da chama, brasa. Brasa. Devaneios tolos me torturam enquanto revejo as fotografias recortadas, me fazendo lembrar com saudade do que já não somos nós.
Talvez nem Freud explique os tempos idos, os copos secos, as cinzas no cinzeiro e o sofrimento do poeta que jamais sentira nada. Tudo isso fez parte do meu sonho. Mais que isso, sonhei que cantávamos a nossa música, aquela que diz algo sobre o sexo ser assunto popular.
Voltando a parte boa do sonho, antes de eu acordar, antes de você me deixar e antes de eu começar a divagar dentro do meu próprio sonho, antes mesmo da chama ardente virar brasa e esta congelar meu sorriso, lembro-me que você me disse que iria comigo, onde quer que eu fosse. E naquele dia branco, que pra mim era como se tivesse mil cores, me lembro que te prometi o sol, se ele saísse, caso você viesse mesmo comigo.
De verdade você veio e eu dei todo o céu, tão imenso como o que eu sentia por você. Te dei a chuva para lavar seu ser. Te dei o sol para que se secasse e se escondesse do frio. Te dei por fim, flores, para que jamais se esquecesse da beleza que existe no amor maior. Percebendo que nada disso tinha te bastaria, lutei ao lado de São Jorge e vencemos o dragão. Ele me emprestou seu cavalo e te coloquei do meu lado para te mostrar a lua. Grave erro. Você se vislumbrou com o alto. Disse que de cima tudo é mais legal, apesar de esquisito, é tudo mais bonito. Comecei a perceber que nada te prenderia a mim se não me tinhas amor. Andei por todo o universo procurando algo que te faria meu, mas não encontrei. E eu trocaria a eternidade para viver tudo isso de novo, com você. Mas nada basta. Só o amor é capaz de se bastar. E a partir daí eu não quero mais reviver. A brasa foi suficiente para acender em mim a realidade.
Deixei você partir. Minha TV está fora do ar. Será que você me olha? Provavelmente não. Do alto é muito esquisito. Você está longe demais das capitais. E pouca coisa me interessa. Não me interessam teorias, coisas do oriente, nem romances astrais. Prefiro não sonhar e me delirar com experiências de coisas reais. Depois que você partiu, tenho raiva até mesmo do sol, dos seus beijos e dos sonhos que sonhei para nós. Depois que você se foi, já ouvi sessenta e três receitas pra te esquecer e eu sei que nada vai resolver. Me tornei louca. De volta aos bares, fiz amizade com outros loucos, que orgulhosamente seguiam bêbados e orgulhosamente seguiam sonhando. Isso também me deu raiva. Me ensinaram, esses meus novos amigos, que quem inventou a razão, a emoção desconhece. Me fizeram seguir a emoção e parar de pensar em você. Pensar... foi algo que há muito deixei de fazer. O problema é que você tomou conta de tudo. Tudo em mim. Já não há emoção, já não há razão, já não há ninguém por aqui. Nenhum filme na TV, que continua fora do ar. Nenhum carro passa por aqui. Já perdi a conta de quantos cigarros enrolei e não dou a mínima pro que vai acontecer. Só os loucos não desistiram de mim. Dizem que o que eu sinto é moderno. O excesso faz sucesso, o final feliz, não. Me ensinaram que esse excesso de amor era uma doença ficta. Eu já não sentia amor, sentia prazer em fingir sofrer. Percebi que o único remédio pra essa minha doença era continuar louca. Foi aí que virei poeta.


domingo, 1 de janeiro de 2012

Pois bem. Depois de muita resistência, resolvi reativar esse blog, que, na verdade, nunca foi ativado de fato. Mas depois de escrever tantos emails senti necessidade de escrever algo mais público e ao mesmo tempo mais particular. Preciso exorcizar alguns fantasmas, divulgar algumas cartas mal guiadas por sentimentos velados. Um eu lírico que sentiu extrema necessidade de ser ouvido por alguém, destinatário final ou simplesmente ouvinte passageiro. Não deixa de ser engraçada, para mim, a idéia de ter um blog depois de passada a adolescência, mas pode ser uma experiência legal. Apesar de já ter participação em outro blog, ter um individual, é diferente. Tem-se a certeza de que quem visita, é porque realmente quer ler meus textos. Finalmente minha covardia me deixou fazer isso. Venci o medo de ser deixada às moscas. Porém, espero que leiam, que releiam e que passem por aqui algumas vezes. Espero que gostem dos textos, de cunho infinitamente autobiográfio, porque meu egocentrismo me permite, na maior parte das vezes, me inspirar somente em mim mesmo, nos fatos dos quais participo. O meu escritor preferido em sua biografia diz que é fácil se escrever quando se tem tema pronto, quando se vê muita coisa e se lê tantas outras. Para ele, é o que justifica a criatividade dos seus textos, vez que cresceu em uma cultura rica em causos populares. Falo de Gabriel García Marquez, grande escritor latino, conhecido mundialmente por vencer um nobel de literatura. Percebe-se ao ler sobre sua vida que grande parte do que escreve foi vivido por ele, foi ouvido por ele através dos populares de seu país. Guardadas as devidas proporções, escrevo sobre o que vejo, sobre o que leio e sobretudo sobre o que eu sinto, deixando minhas impressões em cada palavra. Espero que meu dia-a-dia, minha rotina acelerada não me roube tanto tempo que não seja possível atualizar esse blog com uma frequência considerável. Ler e escrever são coisas que me dão imenso prazer, não mais do que saber que as pessoas que me lêem gostam do que vê escrito. Começa o ano, começa o blog. Declaro aberto meu diário, sintam-se em casa, pois tudo que é escrito tem poesia e é feito com açúcar e afeto.